quarta-feira, 29 de novembro de 2017

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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

sábado, 4 de novembro de 2017

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

MORRERAM TRÊS ESSA NOITE




No exato momento em que o porteiro usa uma lanterna para fiscalizar os muros da escola, diretor e professor se justificam para Lucas sobre o fim da aula ter que ser às oito e não às dez naquele dia, e ainda um grupo de alunos faz algazarra ao redor da porta da direção encostada, onde ocorre a justificativa.
Morreram três essa noite, diz o diretor, enquanto o professor faz um gesto de positivo, confirmando a tragédia.
Não se esqueça de que a nossa escola fica em área de risco, Lucas.
Mas Lucas não quer saber das mortes, põe o dedo na cara do mestre e afirma que ele terá que dar aula até as dez horas.
O porteiro segue em sua procura com veemência, próximo ao muro, mas nem mesmo o grupo de alunos atrás da porta nota sua caçada, estão preocupados demais em prestar atenção ao debate escola versus aluno.
Em meio à aglomeração, um casal faz uma aposta.
Se realmente mataram três essa noite,  você me paga um caldo de cana, estou com desejo, diz a namorada.
Lucas diz que não há confirmação de que morreram três essa noite, não há motivo pra temor nos arredores do colégio, não devem parar antes.
Minha vida depende dos estudos, quero passar em um concurso e tirar a mãe da fome, da casa com esgoto retornando, dos baldes fedidos retirados da cozinha até a madrugada, do aflitivo aluguel que nos faz um bando sem lugar no mundo.
O diretor é indiferente.
Vamos sair às oito horas, sinto muito, mas repito, morreram três essa noite.
Do outro lado da porta, os alunos começam a debochar de Lucas. Ah, os adolescentes, têm tão pouca empatia. Gritam também que querem sair cedo sim, alguns até dizem que poderiam partir nesse instante, ação possível apenas caso o porteiro deixe em paz o muro e abra o portão.
O namorado diz à namorada que ela perderá a aposta, que é outro crime inventado pelo diretor para a escola fechar mais cedo, obviamente fala isso num tom discreto, ele deseja se aproveitar da situação, ao que a namorada se lamenta pois a gravidez a deixou com desejo por caldo de cana.
Dentro da direção, Lucas argumenta que estão em área de risco sim, mas há muito tempo não há ocorrência, que o bairro tem melhorado e que, se saem cedo toda sexta-feira, é mais invenção da direção e dos professores que verdade.
Está nos chamando de mentirosos?
É claro, vocês pegam o carro e vão embora, mas o boato fica e eu vou atrás, procuro saber e não há nada.
Mas os alunos confirmam, rebate o diretor.
O senhor tá falando desse pessoal que chegou às seis e quer ir embora às seis e dez?
O diretor silencia.
Vocês pensam que enganam a quem?
Não fale assim comigo, ouviu, seu moleque? Morreram três essa noite sim.
O grupo ouve o esporro e faz um coro de zoação, algo como uma ôla, por isso ninguém escuta o grito do porteiro que cai, só está ferido e não morto, enquanto o jovem que o aporrinhava tentando pular o muro avança.
Eu não vou ficar ouvindo um moleque me desafiar, grita o diretor.
Isso mesmo, emenda o professor.
Não morreu ninguém, vocês se aproveitam da escola ser em área de risco pra inventar crimes, pensam que não percebo o risinho nojento quando vão nos comunicar em sala?
De repente, um silêncio estranho domina o grupo de alunos que rodeia a porta, ninguém sabe ao certo o que está por acontecer, a discussão foi longe.
O namorado põe a mão na barriga da namorada.
Acho que nosso filho vai nascer com cara de caldo de cana.
Enquanto isso, o jovem que agrediu o porteiro avança, anda gingando, canta qualquer coisa, a escola está escura e só se vê seu tênis brilhando.
O diretor se levanta, Lucas também, ambos são do mesmo tamanho, apesar da diferença de idade, o professor se coloca ao lado do diretor feito um braço direito, eles começam a se xingar. O grupo de alunos na porta volta a gritar, estão todos em êxtase, uma briga histórica irá acontecer, aluno contra professor e diretor, é o fim da razão escolar.
Os ânimos se acalmam um pouco, é o que acontece quando uma tragédia está por vir, tudo parece retomar a tranquilidade e então vem a má notícia.
Vamos fazer uma ocorrência, Lucas, você passou dos limites.
Quero que conste na ocorrência o motivo de não ter aula hoje.
Você quer que a gente coloque que morreram três essa noite?
Se é verdade, tem que entrar no documento e podem dizer que estou contestando, chamando vocês de mentirosos.
Acabou o respeito com o professor neste país, o docente leva a mão à testa.
Se não colocarem isso na ocorrência, eu não assino.
Professor e diretor se olham temerosos.
Lá fora, há gritos em coro. “Lucas, Lucas, Lucas”. A coragem do rapaz ganhou o coração dos desafetos. A grávida alisa a barriga e pede perdão à filha caso ela nasça magra feito uma cana caiana.
Ninguém vai querer namorar com ela, melhor assim, brinca o pai.
Subitamente, o grupo de alunos é empurrado pelo jovem que derrubou o porteiro, a grávida quase cai e o coro em êxtase termina, as vozes em uníssono se tornam um silêncio angustiante.
O jovem entra na direção, onde diretor, professor e aluno estão nos estertores da briga e, sem dizer palavra, desfere três tiros, um no peito do professor, outro na cabeça do diretor e mais um em sua própria têmpora.
Três rios de sangue se encontram numa espécie de afluente, que escorre pela porta encostada e avança sobre os pés do grupo de alunos.
O boato agora se torna real, de modo que o grupo de alunos está enfim livre pra sair cedo, já Lucas terá que esperar alguns dias de colégio em luto pra ter aulas até as dez, por fim a grávida realizará seu desejo de beber caldo de cana, afinal morreram três essa noite.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Papel de palhaço



Em minha mochila, os papéis do divórcio, a receita de tarja preta da mãe, o encaminhamento para a radioterapia do pai e o atestado de óbito da minha filha, além de duas dezenas de currículos e uma marmita azeda.
O atestado de óbito da minha filha era o que mais me doía, claro. Fazia dois meses que eu não sorria. Que eu não gargalhava.
Estava começando a adoecer. Mas como eu tinha outros dois filhos pra criar, precisava voltar a sorrir.
Quando o trem partiu da estação Gramacho, eu só pensava em como voltar a sorrir após dois meses.
Você deve estar cansado das histórias de trem. Mas foi lá, especificamente em Caxias, que o palhaço Inesita entrou. Vestia uma calça listrada bem escrota e um suspensório. Carregava consigo uma bolsa de pano e umas piadas insossas.
- Vocês conhecem a piada do não nem eu? Os rostos dos passageiros indicaram que ninguém conhecia. Não?, nem eu, ele concluiu para o espantoso riso geral.
Com poucos minutos de apresentação, eu já estava de saco cheio. Não queria aquele lirismo, aquela inocência, aquela ingenuidade tão angelical dos palhaços. Eu poderia me levantar e sair. Mas o errado era ele.
Errado era o palhaço por ver o gris mundo de modo tão colorido.
Quando eu estava a ponto de causar um constrangimento àquele sujeito, o palhaço Inesita terminou a apresentação.
Ufa! Virei pro lado e fechei os olhos pra tentar dormir e esquecer a vida. Quem sabe eu voltasse a sorrir após dois meses. Mas, não contente com seus cinco minutos de (des)graça, ele passou a tecer comentários sobre sua arte. Acho que pensou que estivesse num seminário de palhaçaria.
- Eu não interpreto. Simplesmente sou. Inesita não é meu personagem, sou eu mesmo desnudando-me. São minhas energias.
E daí? Ninguém te perguntou nada.
Mas, por incrível que pareça, todo mundo prestava atenção no Inesita, com os olhos vítreos. Ele continuou:
- Quero fazer um convite. Tenho aqui uma bolsa cheia de narizes vermelhos. Se alguém quiser encontrar em si mesmo as energias e trazer à tona seu palhaço interno, fique à vontade.
Franzi o cenho. Não é possível que alguém cairia nessa. Seria fazer papel de palhaço, com o perdão pela redundância.
Silêncio. Ninguém. Inesita estava acuado. Acho que posso voltar a dormir, pensei. Voltar a sorrir. Mas de súbito...
- Eu sou o palhaço Fichinha, alguém disse, me assustando.
Era um sujeito branco de uns trinta anos, e falou isso logo após pegar um dos narizes vermelhos na bolsa de pano. Em sua camisa, escrito “peixe, alimento saudável”. Fiquei pensando se Fichinha não haveria saído de fish, criatividade péssima, nesse caso.
Fichinha começou a interagir com Inesita.
- Inesita, tu sabe por que a loira passou o sábado rindo?
- Não, Fichinha. Por quê?
- Porque eu contei uma piada pra ela na quinta.
Riso geral.
De repente, levantou um negro de quase dois metros, pegou um nariz e apresentou-se como o palhaço Minotombo, fazendo poesia e graças sobre sua própria negritude.
Daí os narizes começaram a ser passados de mão a mão, diversos palhaços apareceram. Indiota era o palhaço índio, Indiota 2 era o palhaço índie, Pernambuco representava o nordeste, Baphônico era um gay, e até um gringo loiro apareceu, isso já bem longe de Caxias, apresentando-se como o palhaço Degringolado, o menos pior dos nomes.
Algumas estações depois, todo o vagão estava com narizes vermelhos, fazendo piadas, exaltando o lirismo do mundo, brincando com as próprias desgraças. Até que eu me tornei o único sem ter descoberto a porra do palhaço interno que existe em mim.
Todos se viraram em minha direção. Tentei fugir pro vagão da esquerda, mas Inesita apareceu. Tentei ir pra direita, mas Degringolado me bloqueou. E, quando eu ia explodir de ódio, surgiu o Minotombo, pele negra, dois metros de altura. Aí eu simplesmente sentei, abaixei a cabeça e pensei na falta que fazia a minha filha.
Aí brotou um ódio imensurável, uma insatisfação por toda aquela alegria. Soltei um grito rouco que você não faz ideia, talvez até o maquinista tenha ouvido, talvez eu tivesse acordado todo o Museu Nacional, visto que passávamos em São Cristóvão.
Amedrontados, Inesita, Minotombo, Degringolado e todos os palhaços, às dezenas, se sentaram.
Eu estava de saco cheio de tanta alegria.
Eu estava de saco cheio de tanta ingenuidade.
- Este é meu número, bando vagabundos.
Abri o jornal e contei as piadas do dia:
- Salários dos servidores atrasados. Estupro de criança em Gramacho. Policial morto em Miguel Couto. Político corrupto em prisão domiciliar. Empresário corrupto vira estrela no Fantástico.
Não houve aplausos.
- Agora um seminário sobre a minha arte, desrespeitável público.
Convidei-os para o núcleo duro da vida, para o estrago das horas do dia, para a mão pesada da rotina e, apresentando a realidade estúpida que vivemos, abri a mochila.
- Estes são os currículos que tô levando à Central, talvez saibam de alguém para me empregar.
Em seguida dei minha marmita azeda ao Degringolado, quem sabe ele não soubesse ainda o que é fome e quisesse descobrir.
Os encaminhamentos da radioterapia do meu pai entreguei ao Minotombo, um câncer é maior que qualquer estatura.
As receitas de tarja preta da minha mãe dei ao Indiota – Indiota 1, se você se lembra, era o índio, quem sabe ele não soubesse uma cura para a depressão através de ervas naturais.
O atestado de óbito da minha filha, eu dei ao Inesita - o líder. Isso eu fiz por nada demais. Só pra ferrar com a autoestima dele mesmo.
O trem abriu as portas, já na Central. Desci sob o olhar silencioso de todos aqueles vagabundos.
Caminhando, já de costas para os palhaços que me olhavam chocados, soltei uma gargalhada daquelas de arejar as gengivas.

E foi assim que voltei a sorrir após dois meses sem minha filha.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Para o Deus dos vendedores de doces a gula não é um pecado



Eu estava em frente à Riosampa, na Via Dutra, esperando minha mulher descer do ônibus. Na famigerada casa de espetáculos iguaçuana haveria um show do Roupa Nova em instantes. Carros bonitos e gente bem-vestida desfilavam por ali.
Mas eu só conseguia prestar atenção a um rapaz de dezetantos anos segurando amendoins e balas, um pouco destacado do ponto. Ele fazia sinal para os ônibus, que passavam alheios.
Comecei a reparar na reação dos motoristas que não o deixavam entrar. Toda vez que o garoto dos amendoins e balas fazia sinal, eles apontavam pra cima, com o dedo indicador.
Fui até o garoto. Comprei balas de café e puxei uma conversa.
- Tá difícil hoje, camarada?, perguntei.
- É, hoje tá. Mas Deus ajuda.
- Por que os motoristas apontam pra cima quando você faz sinal?
- Eles apontam pra câmera, que fica no teto do ônibus.
- E tem ônibus sem câmera?
- Acho que todos têm, mas alguns motoristas me deixam entrar. Deus ajuda.
- E se os motoristas não te deixarem entrar, ou Deus não ajudar, como é que fica?
- Aí eu volto pra casa sem o leite da minha filha. Mas isso nunca aconteceu, sabe por quê?
Levantei os ombros.
- Porque não perco a fé. Eu vou entrar e vou vender tanto doce que os passageiros vão ficar diabéticos, ele disse, em seguida riu.
Nesse momento, uma equipe de reportagem desceu de uma Vã e começou a filmar a gigantesca fila para o show do Roupa Nova.
Comecei a pensar que as câmeras estão ajudando quem não precisa e atrapalhando os necessitados. As câmeras homenageiam os privilegiados e vigiam os condenados. Malditas câmeras.
Continuamos a prosear por mais uns dez minutos, vários motoristas passaram apontando pra cima. Foi exatamente o motorista do ônibus que minha mulher desembarcou que permitiu a entrada do rapaz dos amendoins e balas.
Ela desceu, ele subiu.
Enquanto eu a abraçava, ele me encarou das escadas do coletivo. Apontou pra cima.
- Tem câmera? Perguntei.
- Tem Deus!, ele gritou e subiu anunciando, desenvolto, suas guloseimas.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A estranha caligrafia do professor Cesar



Eu só queria que meus alunos entendessem a minha letra. Mas era difícil, principalmente depois de tudo que vivi e das estranhas influências que tais fatos lúgubres exerceram sobre a minha vida.
Antes de morrer, minha mãe me ensinava o dever de casa diariamente. Desde muito novo, quando eu, ainda no jardim de infância, aprendia as famílias das letras. Da de di do du dado, ca co cu riso velado. No ma me mi mo mu eu sempre errava o m. Daí ela colocava a mão dela em cima da minha e me ajudava a desenhá-lo.
Éramos uma família paupérrima, mas eu estudava num colégio particular desses com nomes engraçados, Algodão Doce, Elefantinho Feliz ou coisa que o valha. Quem pagava era minha avó, dona Severina, cinquentenária avó vendendo picolé no trem.
Hoje lembro aterrorizado de certas coisas que minha mãe me disse enquanto me ensinava. Rememoro algo em especial: filho, você tem a caligrafia mais bonita da família. Por que, mãe?, perguntei. Ela pensou alguns instantes. Veja, teu pai tem uma letra de forma horrorosa e difícil; sua irmã tem curvas exageradas nas letras, o N desce até a linha inferior, a curva do P ocupa espaços que não são dele; seu irmão põe bolinhas sobre o i em vez de pingos; e, quanto a mim, tenho essa letra arrastada e preguiçosa. Eu a observava com o rosto apoiado na mão. E a minha letra, mamãe? Ela me respondeu que minha letra era perfeita e que nunca teria problemas com ela.
Coitada, mal imaginaria que perco metade da aula decifrando palavras aos meus alunos que, por mais que semicerrem os olhos, não conseguem compreender a estranha caligrafia do professor Cesar, neste caso, eu.
Um dos alunos me disse certa vez: professor Cesar, tua letra tem um mistério. Mistério, como assim?, perguntei. Já tive professores com letra difícil, mas seguem uma lógica, daí a gente vai entendendo, mas o senhor... O senhor o quê?, pedi que continuasse. É como se a sua caligrafia na verdade fosse a caligrafia de várias pessoas escrevendo ao mesmo tempo.
Aquilo não era improvável. Antes de falecer de câncer, minha mãe me deixou uma carta. Eu tinha doze anos e li com olhos chorosos suas letras arrastadas e preguiçosas. As mesmas letras que ela me ajudava a escrever. Olhei fixamente para a carta e, desde então, meu M, a título de exemplo, sai feito uma ondinha.

                                                                                             

Aí fomos morar na casa da avó Severina. Ela ainda vendia picolé no trem, à época. Fomos eu e meus dois irmãos. Meu pai ficou morando sozinho. Eu sentia falta dele. Principalmente quando eu tinha febre. Sempre que meu corpo superaquecera, eu pedia ao meu pai pra colocar suas grandes mãos frias sobre minha testa. Aliviava. Agora, eu tinha que cuidar da febre por conta. Numa noite de corpo a trinta e nove e meio, eu estava na fronteira entre realidade e delírio e senti sua mão na minha testa. Na hora, fiquei em dúvida se ele havia ido me fazer uma visita, mas hoje, décadas depois, percebo que era delírio, pois ele havia cometido suicídio dias antes.
Depressão pós-viuvez. Veneno de rato.
Fui à sua casa na tarde seguinte e senti sua presença todo o tempo. Revirei seus papéis de trabalho em busca de alguma informação. Nada. Apenas mágoa, por minha parte. Entretanto, depois que li suas atividades de trabalho, ao olhar fixamente as letras, adquiri nuances de sua letra difícil e horrorosa. Meu t, por exemplo, ficou assim:

              

As desgraças na família não pararam por aí. Poucos anos depois, a leucemia levou meu irmão embora.  Ele sentia muito frio durante o tratamento. Era inverno. Usava sempre luvas e me pedia pra que ajudasse a aquecer sua mão. Um dia, pediu para que eu o ajudasse a escrever sobre sua paixão por futebol. Sem força em seus frágeis dedos, fiz como a mãe fazia e segurei sua mão enluvada. Tinha as extremidades frias.
A morte veio rápida e certeira. Ficaram muitas lembranças e um certo desespero noturno. Porque algo muito estranho aconteceu. Quando voltamos do seu sepultamento, dormi doze horas seguidas. Antes, coloquei as luvas dele em cima da cama que dormia, no quarto que era nosso, e deitei na minha cama. Devo ter tido distúrbios noturnos, porque, quando despertei, eu estava na cama dele e, pásmen, vestindo as suas luvas. Minhas mãos estavam frias nas extremidades, mas eu sentia um calor esquisito envolvendo o meu dorso.  Depois desse caso, nunca mais consegui deixar de por bolinhas em vez dos pingos nos is.

                             
Anos depois, como se não bastasse, a insuficiência cardíaca da minha irmã. Eu tinha 25 anos e cuidava dela feito um pai. Ela vivia muito sozinha em seu quarto e só depois fui descobrir que seu maior passatempo era escrever poemas. Um dia, de repente, começou a gritar, gemer, dizer que morreria. Então segurou minha mão, apertou forte e implorou que eu lesse suas criações literárias. Em seguida partiu. Sinto dor até hoje só de lembrar a força que ela apertou minha mão. Em seus cadernos de poesia, que li e reli, nunca descobri nada. Mas herdei a extravagância em algumas letras, no O e no R, por exemplo:


                                                                                           
E aí sobramos eu e dona Severina, minha vó.
Finalmente ela pode abandonar a vida de vendedora nos trens, porque aos vinte e seis me tornei professor.
Minha letra é realmente péssima, confesso. Mas ortografia eu não erro. Ao menos não errava. Até esta noite.
Num exemplo que dei aos alunos da EJA sobre função sintática, escrevi a palavra morte. E ela saiu da seguinte forma.


Eles riram de mim. Desculpem a letra, pessoal, é bem ruim mesmo, eu disse sem olhar o quadro. Professor, com todo o respeito, não é a letra, mas é um erro, porque morte é com “e” no final, disse-me um aluno.
Enrubesci. Claro que era. Como eu tinha errado? Perdão, pessoal, esse é o i do meu irmão.
Nesse momento, levantou a única aluna que não havia rido. Dona Chica. Diziam que possuía poderes mediúnicos, uma mistura de experiências em igrejas pentecostais e mesas espíritas. Não é só teu irmão, professor. Como assim? Perguntei, meio assustado por seu tom de voz funesto e diferente do normal. Eu vi. Viu o que, dona Chica? Não foi você que escreveu “morti”, ao menos não foi você sozinho.
Neste momento, comecei a chorar de pavor.
Eu vi quatro mãos em cima da sua, escrevendo com a sua.
A voz da dona Chica tinha um grave diferente do normal. Era outra voz. Meu choro tornou-se farto.
E Deus me manda dizer outra coisa. O quê?, perguntei. Que sua avó está doente demais, sofrendo demais e que vai levá-la ainda hoje.
Minha avó estava internada. Mal, muito mal. Provavelmente morresse.
Da próxima vez que vier dar aula, serão cinco mãos sobre a sua, escrevendo com a sua, sua avó irá escrever junto contigo, Deus manda te falar, ela concluiu e então entrou num transe, em meio a gemidos e ruídos estranhos.
Mas eu me tranquilizei. Até parei de chorar. Dessa vez, dona Chica tinha errado. Minha avó realmente faleceu. Descansou, finalmente. Mas nunca iria segurar minha mão quando eu escrevesse, nem eu poderia herdar dela traços de caligrafia. Vendedora de picolé nos trens, dona Severina, minha avó, morreu analfabeta.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017