quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Para o Deus dos vendedores de doces a gula não é um pecado



Eu estava em frente à Riosampa, na Via Dutra, esperando minha mulher descer do ônibus. Na famigerada casa de espetáculos iguaçuana haveria um show do Roupa Nova em instantes. Carros bonitos e gente bem-vestida desfilavam por ali.
Mas eu só conseguia prestar atenção a um rapaz de dezetantos anos segurando amendoins e balas, um pouco destacado do ponto. Ele fazia sinal para os ônibus, que passavam alheios.
Comecei a reparar na reação dos motoristas que não o deixavam entrar. Toda vez que o garoto dos amendoins e balas fazia sinal, eles apontavam pra cima, com o dedo indicador.
Fui até o garoto. Comprei balas de café e puxei uma conversa.
- Tá difícil hoje, camarada?, perguntei.
- É, hoje tá. Mas Deus ajuda.
- Por que os motoristas apontam pra cima quando você faz sinal?
- Eles apontam pra câmera, que fica no teto do ônibus.
- E tem ônibus sem câmera?
- Acho que todos têm, mas alguns motoristas me deixam entrar. Deus ajuda.
- E se os motoristas não te deixarem entrar, ou Deus não ajudar, como é que fica?
- Aí eu volto pra casa sem o leite da minha filha. Mas isso nunca aconteceu, sabe por quê?
Levantei os ombros.
- Porque não perco a fé. Eu vou entrar e vou vender tanto doce que os passageiros vão ficar diabéticos, ele disse, em seguida riu.
Nesse momento, uma equipe de reportagem desceu de uma Vã e começou a filmar a gigantesca fila para o show do Roupa Nova.
Comecei a pensar que as câmeras estão ajudando quem não precisa e atrapalhando os necessitados. As câmeras homenageiam os privilegiados e vigiam os condenados. Malditas câmeras.
Continuamos a prosear por mais uns dez minutos, vários motoristas passaram apontando pra cima. Foi exatamente o motorista do ônibus que minha mulher desembarcou que permitiu a entrada do rapaz dos amendoins e balas.
Ela desceu, ele subiu.
Enquanto eu a abraçava, ele me encarou das escadas do coletivo. Apontou pra cima.
- Tem câmera? Perguntei.
- Tem Deus!, ele gritou e subiu anunciando, desenvolto, suas guloseimas.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A estranha caligrafia do professor Cesar



Eu só queria que meus alunos entendessem a minha letra. Mas era difícil, principalmente depois de tudo que vivi e das estranhas influências que tais fatos lúgubres exerceram sobre a minha vida.
Antes de morrer, minha mãe me ensinava o dever de casa diariamente. Desde muito novo, quando eu, ainda no jardim de infância, aprendia as famílias das letras. Da de di do du dado, ca co cu riso velado. No ma me mi mo mu eu sempre errava o m. Daí ela colocava a mão dela em cima da minha e me ajudava a desenhá-lo.
Éramos uma família paupérrima, mas eu estudava num colégio particular desses com nomes engraçados, Algodão Doce, Elefantinho Feliz ou coisa que o valha. Quem pagava era minha avó, dona Severina, cinquentenária avó vendendo picolé no trem.
Hoje lembro aterrorizado de certas coisas que minha mãe me disse enquanto me ensinava. Rememoro algo em especial: filho, você tem a caligrafia mais bonita da família. Por que, mãe?, perguntei. Ela pensou alguns instantes. Veja, teu pai tem uma letra de forma horrorosa e difícil; sua irmã tem curvas exageradas nas letras, o N desce até a linha inferior, a curva do P ocupa espaços que não são dele; seu irmão põe bolinhas sobre o i em vez de pingos; e, quanto a mim, tenho essa letra arrastada e preguiçosa. Eu a observava com o rosto apoiado na mão. E a minha letra, mamãe? Ela me respondeu que minha letra era perfeita e que nunca teria problemas com ela.
Coitada, mal imaginaria que perco metade da aula decifrando palavras aos meus alunos que, por mais que semicerrem os olhos, não conseguem compreender a estranha caligrafia do professor Cesar, neste caso, eu.
Um dos alunos me disse certa vez: professor Cesar, tua letra tem um mistério. Mistério, como assim?, perguntei. Já tive professores com letra difícil, mas seguem uma lógica, daí a gente vai entendendo, mas o senhor... O senhor o quê?, pedi que continuasse. É como se a sua caligrafia na verdade fosse a caligrafia de várias pessoas escrevendo ao mesmo tempo.
Aquilo não era improvável. Antes de falecer de câncer, minha mãe me deixou uma carta. Eu tinha doze anos e li com olhos chorosos suas letras arrastadas e preguiçosas. As mesmas letras que ela me ajudava a escrever. Olhei fixamente para a carta e, desde então, meu M, a título de exemplo, sai feito uma ondinha.

                                                                                             

Aí fomos morar na casa da avó Severina. Ela ainda vendia picolé no trem, à época. Fomos eu e meus dois irmãos. Meu pai ficou morando sozinho. Eu sentia falta dele. Principalmente quando eu tinha febre. Sempre que meu corpo superaquecera, eu pedia ao meu pai pra colocar suas grandes mãos frias sobre minha testa. Aliviava. Agora, eu tinha que cuidar da febre por conta. Numa noite de corpo a trinta e nove e meio, eu estava na fronteira entre realidade e delírio e senti sua mão na minha testa. Na hora, fiquei em dúvida se ele havia ido me fazer uma visita, mas hoje, décadas depois, percebo que era delírio, pois ele havia cometido suicídio dias antes.
Depressão pós-viuvez. Veneno de rato.
Fui à sua casa na tarde seguinte e senti sua presença todo o tempo. Revirei seus papéis de trabalho em busca de alguma informação. Nada. Apenas mágoa, por minha parte. Entretanto, depois que li suas atividades de trabalho, ao olhar fixamente as letras, adquiri nuances de sua letra difícil e horrorosa. Meu t, por exemplo, ficou assim:

              

As desgraças na família não pararam por aí. Poucos anos depois, a leucemia levou meu irmão embora.  Ele sentia muito frio durante o tratamento. Era inverno. Usava sempre luvas e me pedia pra que ajudasse a aquecer sua mão. Um dia, pediu para que eu o ajudasse a escrever sobre sua paixão por futebol. Sem força em seus frágeis dedos, fiz como a mãe fazia e segurei sua mão enluvada. Tinha as extremidades frias.
A morte veio rápida e certeira. Ficaram muitas lembranças e um certo desespero noturno. Porque algo muito estranho aconteceu. Quando voltamos do seu sepultamento, dormi doze horas seguidas. Antes, coloquei as luvas dele em cima da cama que dormia, no quarto que era nosso, e deitei na minha cama. Devo ter tido distúrbios noturnos, porque, quando despertei, eu estava na cama dele e, pásmen, vestindo as suas luvas. Minhas mãos estavam frias nas extremidades, mas eu sentia um calor esquisito envolvendo o meu dorso.  Depois desse caso, nunca mais consegui deixar de por bolinhas em vez dos pingos nos is.

                             
Anos depois, como se não bastasse, a insuficiência cardíaca da minha irmã. Eu tinha 25 anos e cuidava dela feito um pai. Ela vivia muito sozinha em seu quarto e só depois fui descobrir que seu maior passatempo era escrever poemas. Um dia, de repente, começou a gritar, gemer, dizer que morreria. Então segurou minha mão, apertou forte e implorou que eu lesse suas criações literárias. Em seguida partiu. Sinto dor até hoje só de lembrar a força que ela apertou minha mão. Em seus cadernos de poesia, que li e reli, nunca descobri nada. Mas herdei a extravagância em algumas letras, no O e no R, por exemplo:


                                                                                           
E aí sobramos eu e dona Severina, minha vó.
Finalmente ela pode abandonar a vida de vendedora nos trens, porque aos vinte e seis me tornei professor.
Minha letra é realmente péssima, confesso. Mas ortografia eu não erro. Ao menos não errava. Até esta noite.
Num exemplo que dei aos alunos da EJA sobre função sintática, escrevi a palavra morte. E ela saiu da seguinte forma.


Eles riram de mim. Desculpem a letra, pessoal, é bem ruim mesmo, eu disse sem olhar o quadro. Professor, com todo o respeito, não é a letra, mas é um erro, porque morte é com “e” no final, disse-me um aluno.
Enrubesci. Claro que era. Como eu tinha errado? Perdão, pessoal, esse é o i do meu irmão.
Nesse momento, levantou a única aluna que não havia rido. Dona Chica. Diziam que possuía poderes mediúnicos, uma mistura de experiências em igrejas pentecostais e mesas espíritas. Não é só teu irmão, professor. Como assim? Perguntei, meio assustado por seu tom de voz funesto e diferente do normal. Eu vi. Viu o que, dona Chica? Não foi você que escreveu “morti”, ao menos não foi você sozinho.
Neste momento, comecei a chorar de pavor.
Eu vi quatro mãos em cima da sua, escrevendo com a sua.
A voz da dona Chica tinha um grave diferente do normal. Era outra voz. Meu choro tornou-se farto.
E Deus me manda dizer outra coisa. O quê?, perguntei. Que sua avó está doente demais, sofrendo demais e que vai levá-la ainda hoje.
Minha avó estava internada. Mal, muito mal. Provavelmente morresse.
Da próxima vez que vier dar aula, serão cinco mãos sobre a sua, escrevendo com a sua, sua avó irá escrever junto contigo, Deus manda te falar, ela concluiu e então entrou num transe, em meio a gemidos e ruídos estranhos.
Mas eu me tranquilizei. Até parei de chorar. Dessa vez, dona Chica tinha errado. Minha avó realmente faleceu. Descansou, finalmente. Mas nunca iria segurar minha mão quando eu escrevesse, nem eu poderia herdar dela traços de caligrafia. Vendedora de picolé nos trens, dona Severina, minha avó, morreu analfabeta.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

segunda-feira, 11 de setembro de 2017